Classe Política?…


E difícil não se deparar com o termo classe política na imprensa nacional, em especial afirmando que necessitamos de uma nova classe política e, pior, afirmando que a comunidade política atual está comprometida por completo com o descaminho, infringindo os valores éticos e morais. Diante dos fatos resolvi analisar esta conjuntura.

A política nunca foi tão demonizada, aterrorizada, até mesmo exposta, ao ponto de pensarmos que é algo apenas para eles e nunca para nós; tornou-se algo dos outros e não da gente. É verdadeiro que no Brasil a participação política nunca foi um valor prioritário da sociedade, mas nos últimos anos a marginalização se aprofundou, de tal maneira que falar de política em público tornou-se inconveniente, algo particular apenas para os extremistas, mas não no bojo do social.

Pensar em política é pensar na governança de um povo e no Brasil temos o modelo presidencialista, acompanhado da democracia representativa, pois designamos cidadãos para nos representar na arena política. Partindo do princípio da designação, podemos concluir que o espaço de poder é um reflexo das forças organizadas da sociedade, as quais conseguiram conquistar acento no parlamento e assim influir nas decisões políticas. Sendo isto verdadeiro, será correto afirmar que necessitamos uma nova classe política?

Confesso que acho perigoso, porém, o debate público argumenta que o Brasil é vitima da corrupção da classe política. É relevante reconhecer o desserviço de alguns homens e mulheres que exercem os cargos públicos, mas me ocorre o fato de que para ser corrupto necessariamente eu tenho que ter o corruptor e, em se tratando disto, creio que a inclusão em nossas avaliações do papel do corruptor na corrupção faz com que nosso horizonte de analise amplie-se, não se tratando apenas de homens e mulheres públicas “os políticos”, mas, sim, de um espectro muito maior da sociedade: será que não deveríamos avaliar também advogados, empresários, engenheiros, agricultores, doleiros, motoristas, médicos, empreiteiros, administradores, economistas e tantas outras denominações profissionais? Acho que realmente daria mais trabalho, sendo mais fácil acusar a quem é mais vulnerável perante a sociedade, os políticos.

Trocar apenas uma engrenagem do mecanismo não é garantia de sucesso, porém, não quero aqui pregar a revolução: apenas dizer que se realmente queremos uma “nova política”, necessariamente nós teremos que ter um novo comportamento dos elementos vivos da sociedade, pois a ética política não esta aplicada apenas aos instituídos pelo voto, mas ao conjunto da comunidade. Ao contrário, podemos esperar a repetição dos mesmos equívocos daqui um ano ou vinte anos: a verdade é que no futuro se repetirão.

Acredito que o caminho não e demonizar apenas um elemento, esquecendo-se dos demais que compõem o tecido social brasileiro, e como tal são responsáveis pelos problemas que a nação vem passando. Caso contrário, poderemos arcam com um custo elevado no futuro, sendo assim necessária uma reflexão real do país que queremos, despida de protecionismo e privilégios, tendo o futuro da nação como norte.

Na verdade, quando ouvimos que necessitamos de uma nova classe política, temos que entender que o que está em questão é o modelo de representação política adotada no Brasil, que é a democracia representativa; e o questionamento de modelo de representação torna-se nulo pelas ações dos eleitos. Nesse caso, sim, temos que avaliar de que forma a sociedade brasileira está organizada, a ponto de colocar na arena política cidadãos que não conseguem defender o interesse coletivo e sim estritamente o de alguns setores e seus próprios, o que não é saudável à democracia, nos remetendo a um novo tema de reflexão: como e em quem está votando o povo brasileiro?

Quero frisar que não existe nova classe política sem o amadurecimento da sociedade brasileira e sem a existência da percepção que vivemos uma democracia representativa, que o poder emana do povo e que os eleitos são um reflexo de nossa sociedade.

É relevante nos sentirmos partícipes do processo de eleitoral e como tal desenvolvemos papel relevante e de responsabilidade na construção de um país melhor.

Aloisio Nascimento – Cientista político e Assistente Social

Rádio Plena

22/06/2018

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