Fé e cidadania

“É bom não fazer o mal, mas é mal não fazer o bem” (frase de São Alberto Hurtado SJ), lembrando o convite de São Paulo a não entristecermos o Espírito Santo, com o qual fomos marcados por Deus no dia de nosso Batismo.

“Mas eu me pergunto: como se entristece o Espírito Santo? Todos nós o recebemos no Batismo e na Crisma, portanto, para não entristecer o Espírito Santo, é necessário viver de uma maneira coerente com as promessas do Batismo, renovadas na Crisma. De maneira coerente, não com hipocrisia… O cristão não pode ser hipócrita: ele deve viver de maneira coerente. As promessas do Batismo têm dois aspectos: renúncia do mal e adesão ao bem”.

“Renunciar ao mal significa dizer não às tentações, ao pecado, a satanás, mas mais concretamente, significa dizer não a uma cultura da morte, que se manifesta na fuga do real para uma falsa felicidade que se expressa nas mentiras, na fraude, na injustiça, no desprezo do outro. Para tudo isso, não.”

“A vida nova que nos é dada no Batismo, e que tem como fonte o Espírito, rejeita um comportamento dominado por sentimentos de divisão e discórdia. Por isso que o apóstolo Paulo exorta a remover do seu coração “toda aspereza, desdém, ira, gritaria e insultos com todo tipo de maldade”. Isto é o que Paulo diz. Esses seis elementos ou vícios – desdém, ira, gritaria, maledicência e todo tipo de maldade – que perturbam a alegria do Espírito, envenenam o coração e levam a praguejar contra Deus e o próximo”.

“Muitas vezes acontece de ouvir alguns que dizem: “Eu não faço mal a ninguém”. E acredita-se ser um santo. Não. Ok, mas você faz o bem? Quantas pessoas não fazem o mal, mas nem mesmo o bem, e sua vida acaba na indiferença, na apatia, na tibiez. Essa atitude é contrária ao Evangelho…”

Os cristãos devem ser “protagonistas no bem”.

“Não se sintam bem quando vocês não fazem o mal, não: não é suficiente; cada um é culpado pelo bem que poderia ter feito e não fez. Não basta não odiar, é preciso perdoar; não basta não ter rancor, devemos orar pelos inimigos; não basta não ser causa de divisão, é preciso levar a paz onde ela não existe; não basta não falar mal dos outros, é preciso interromper quando ouvimos falando mal de alguém. Parar as fofocas: isso é fazer o bem. Se não nos opomos ao mal, nós o alimentamos calando. É necessário intervir onde o mal se espalha; porque o mal se espalha onde não há cristãos ousados ​​que se opõem com o bem, “caminhando na caridade”, segundo a advertência de São Paulo”.

As palavras acima foram ditas pelo Papa Francisco, em 12/08/18, durante santa Missa e preparação ao Sínodo a realizar em outubro do mesmo ano sobre os jovens.

Fé e cidadania são realizadas apenas orando para que agentes públicos sejam capazes, produtivos e honestos?

Na santa Missa a Oração dos Fiéis ou Oração Universal conclui a Liturgia da Palavra: os fiéis, após escutarem a Palavra de Deus e professarem sua fé, expõem publicamente suas intenções, elevando coletivamente a Ele suas preces (inicialmente, propostas de preces que se tornarão preces com a resposta e aceitação de toda a assembleia). A assembleia litúrgica, povo de Deus, exerce sua função sacerdotal e suplica por todas as pessoas, toda a sociedade. A Oração dos Fiéis deve contemplar necessariamente estes quatro pilares e sequência: pelas necessidades da Igreja e do Papa; pelos governantes, legisladores e magistrados; pelos que sofrem qualquer necessidade, especialmente pelos enfermos; pelas necessidades da comunidade local.

No tocante aos agentes públicos pelos quais se deve sempre orar, dado que possuem um poder temporal com o qual devem servir ao povo, habitualmente a assembleia suplica pela retidão deles em oração, mas, equivocada por falta de formação ou da sua devida compreensão e/ou adesão, em grande parte, sequer sabe quais as atribuições institucionais de cada qual, tampouco os acompanha antes e após a ocupação do mandato ou outra função pública, conhecendo, observando, apoiando, fiscalizando, cobrando. Até, se escandaliza quando instada a fazê-lo, protestando, “em pensamentos e palavras, atos e omissões”, com afirmações tais como: “importa só o plano espiritual”, “faço minha parte quando rezo”, “participo de atividades na comunidade (somente dentro dos muros da igreja)” e “que absurdo falar dessa gente na igreja e em plena Missa ou Culto”. Demonstram ignorar as Constituições do Concílio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o Documento de Aparecida, por exemplo, e, essencialmente, aquilo de que tratam estes e outros preciosos e indispensáveis documentos: A Bíblia ou a Palavra de Deus, especialmente, o Evangelho ou a Boa Nova de Jesus Cristo. Aceitam e disseminam o equívoco de achar que política partidária é a política como um todo, quando em verdade é uma das suas ramificações…

Política vai muito além da partidária: “A razão, a moral, a prudência, a experiência, o sabor de administrar os diversos interesses e necessidades sociais, a favor da coletividade” (Prof. Marco Bertoldo). “Arte do diálogo e da persuasão que objetiva o estabelecimento de uma relação mutuamente consentida e respeitosa; arte do convívio com o mínimo de conflito; busca permanente da harmonia e do equilíbrio na vida em sociedade” (Fernando Lobato). Política, portanto, se realiza com ética, verdade, fraternidade, paz, bondade, trabalho, atitude, compromisso, respeito, justiça, empatia, altruísmo etc. Quando por trás de máscaras e farsas habitam mentira, egoísmo, inveja, ganância, corrupção, preguiça etc, o que se realiza é politicagem. E mesmo que não haja máscaras e haja dignidade, porém, se poluída por omissão, alienação, obtusidade etc, contribui-se para que outros façam politicagem: o omisso, o alienado e o obtuso contumaz, ainda que sem querer, sem perceber e sem admitir, é co-responsável por tanta politicagem em todas as épocas, lugares, instituições, comunidades e atividades, inclusive, na Igreja e noutras religiões, todas, tão divididas por politiqueiros disfarçados de fieis e crentes.

Na primeira parte deste artigo, o Papa Francisco está a dizer, noutras palavras, que para ser cristão é preciso ser político? Se sim, qual político o cristão deve ter por companhia e exemplo? Deus, cuja política é Salvar? E Jesus Cristo, cuja política é ser o Salvador de todos que n’Ele crêem, motivo pelo qual se fez humano por algum tempo e iniciou a Sua Igreja para todos (catolicidade)? E o Espírito Santo, cuja política é inspirar e iluminar? E as diretrizes políticas da Santíssima Trindade estão contidas no Santo Livro? Sendo assim, não seria prudente pensar duas vezes antes de execrar, apequenar, distorcer e reduzir a riqueza plena e ímpar da palavra política? Seria razoável depreender que para ser cristão é preciso ser cidadão, e, nas duas condições, ora protagonista, ora coadjuvante, mas, jamais, relés figurante?

Também na política partidária, que é uma das maneiras de realizar a política plena e divina (o Reino de Deus), os cristãos verdadeiros são minoria, exceção, ausentes, ou, muitíssimos, carecem de maior compreensão e adesão concreta à política de Deus, que na Pessoa de Jesus Cristo foi tão clara e suficientemente testemunhada, ensinada e proposta. Urge fazer mais evangelização e missão, congregar as pessoas em assembléia litúrgica para orar e celebrar, vivenciar, amadurecer e embasar a fé, proporcionar que a religião religue o crente a Deus e, por intermédio desta mesma fé e religiosidade, renove e inove o crente n’Ele. Por tal processo passa finalmente alcançar o patamar de compreender que naquele espaço físico ao qual chamamos templo ou igreja está um símbolo (aquilo que une – a Deus), no qual precisamos ir, conviver e permanecer, mas que, quanto mais bem sucedidos e honestos formos quanto à pertença ao rebanho dos filhos de Deus, mais seremos impelidos a voltar, conviver e permanecer inseridos, ativos e compromissados na sociedade, respeitando-a em sua secularidade, porém, plenos em nosso sentir, pensar, ser e fazer conforme os genuínos valores cristãos: que, em dois mil anos, apesar de equívocos propositais ou acidentais, foram fundamentais na construção de um mundo melhor, e são a esperança de que a humanidade não se perca de todo ou de vez!

Publicação original em 04 de setembro de 2018

José Carlos de Oliveira

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Rádio Plena

07/09/2018

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