Quinta-feira, 22 de Novembro de 2019
Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade

O mel e o fim das abelhas

Quando destroem colmeias e abelhas, os homens caminham para destruir a história

Publicada em 21/09/19 às 11:31h - 104 visualizações

por Joana Monteleone


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Ilustração do manuscrito do século XIV, Tacuina sanitatis / Reprodução  (Foto: )

Dizem os cientistas que as abelhas serão exterminadas. Uma política agrícola irresponsável, de uso intensivo de pesticidas e transgênicos, será causadora do fim dos insetos que fazem a polinização de 90% das flores e sementes.

A humanidade depende das abelhas para a agricultura, e a situação começa a ficar bem feia quando o governo estadunidense inclui sete espécies deste inseto na lista de animais em extinção. Já no Reino Unido, o número de abelhas corresponde a apenas 25% do necessário para dar conta da polinização de vegetais e plantas. Um episódio de uma série de ficção científica bem conhecida, Black Mirror, tratou do problema da extinção das abelhas de maneira aterrorizante no episódio “Odiados pela Nação”.

A relação simbiótica das abelhas com os humanos começa ainda na pré-história, quando os homens caçavam e coletavam frutos, flores, sementes, ovos e mel na natureza. O mel foi um dos primeiros alimentos doces já provados pelo homem e aparece em diversos relatos bíblicos. Junto com o trigo (e o pão), as oliveiras (e o azeite) e o vinho, o mel faz parte da base da civilização cristã ocidental.

Há cerca de 8 mil anos, nas paredes das cavernas de Araña, na região de Valencia, Espanha, foi feito um desenho de uma pessoa pendurada num cipó tentando alcançar uma colmeia para retirar o mel silvestre de dentro. Os sumérios do Vale do Rio Eufrates, no Oriente Médio, onde hoje fica o Iraque, há cerca de 2000 a. C. escreveram numa tábua de argila uma receita médica para cuidar dos machucados: “Moer até que a areia do rio vire pó […] e amassar com água e mel, azeite puro e óleo de cedro e colocar quente sobre a ferida”. O trecho destaca as propriedades antissépticas curativas do mel.

No Antigo Testamento, várias vezes o mel é citado como sinônimo de abundância e da Terra Prometida. Numa passagem, Deus promete a Moisés que ele guiaria o povo de Israel até a Terra Prometida, terra que “emana leite e mel” (Exodus 3:8). O mel faz parte das tradições gastronômicas judaicas, sendo consumido no Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, que este ano cai entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro, quando se comemora a entrada no ano 5781. Comer mel com maçãs ou chalá, uma espécie de pão doce redondo, é símbolo de um ano novo abundante e doce.

Na Roma Antiga, o mel era um dos condimentos mais importantes, sendo usado em temperos diversos e bolos de especiarias. Também servia para dar gosto a uma espécie de mingau de cereais, feito com a espelta ou o trigo, torrados e moídos e depois embebidos em água e leite. Numa variação chamada puls punica, acrescentavam-se queijo, mel e uma gema de ovo.

Na Idade Média, difundiram-se técnicas de preservação de frutas ou legumes no mel, ao mesmo tempo em que o açúcar, plantado na Sicília, Itália, começava a aparecer como uma opção para adoçar pratos. Na Península Ibérica, os povos árabes apreciavam iguarias adoçadas com mel, numa tradição que remonta ao Egito Antigo.  

Mas o mel também está presente em outras culturas antigas, fora da Europa e do Oriente Médio. Na América, os Astecas comiam mel de manhã, num prato chamado atole, uma pasta de milho, mel e água quente, ou no chocolate temperado com mel e baunilha.  

No Brasil, o mel faz parte da dieta cotidiana de diversas tribos. Na Amazônia, por exemplo, os Kaiapó acreditam num feiticeiro que mora nas nuvens e alimenta-se de mel. Perto do Rio Negro, os índios fazem um prato em que cortam um abacaxi em quatro, ralando-o junto com a casca. A massa é misturada num mingau de tapioca e cozida com mel para deixá-la mais doce.  

Muitas vezes, o mel e as abelhas foram usados como metáforas para comportamentos humanos. Cedo se descobriu que as colmeias tinham uma rainha e a metáfora da colmeia serviu para justificar o poder de diversas monarquias europeias. A ideia era que, se na natureza encontramos abelhas servindo uma rainha na colmeia, os homens deveriam fazer o mesmo.  O trabalho coletivo das abelhas nas colmeias também serviu para diversas imagens e figuras de linguagem de movimentos sociais e socialistas em muitos lugares. A ideia do trabalho para coletividade era o que atraia os artistas para essa metáfora.    

Colmeias e abelhas têm convivido com os homens desde tempos pré-históricos. Quando se destroem as colmeias e se matam as abelhas, os homens dão os primeiros passos para destruírem a própria história.

Joana Monteleone editora e historiadora. Autora dos livro "Toda comida tem uma história" (Oficina Raquel, 2017) e "Sabores Urbanos: alimentação, sociabilidade e consumo" (Alameda Casa Editorial, 2015).






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