O Brasil é maior que seus problemas, suas causas e seus causadores.
Território continental, rico e diversificado em recursos naturais e humanos, como nenhum outro.
As dificuldades históricas, comuns e atuais, quanto mais percebidas, recusadas e combatidas com civilidade, criatividade, esforço, entusiasmo e inovação, mais vão se transformando e gerando oportunidades àqueles que as empreendem e para tantos quantos sejam alcançados e influenciados: evoluindo todos gradativamente de figurantes para protagonistas de suas vidas.
O esforço que a pressa rejeita!
Estudar, assimilar, criar e compartilhar conhecimento exige esforço contínuo. Aperfeiçoar-se com ética sincera e técnica apurada custa tempo, disciplina e energia — e isso cansa. Cada vez menos pessoas se dispõem a percorrer esse caminho mais longo e exigente.
A leitura atenta, constante e diversificada sempre foi uma das ferramentas centrais da formação intelectual. Ler demanda tempo, concentração e silêncio interior — exatamente os elementos que a cultura da pressa e da distração rejeita. O resultado é um ambiente cada vez mais favorável à mediocridade.
A era da visibilidade sem conteúdo!
Hoje é mais fácil obter reconhecimento falando bobagem do que construindo e oferecendo conhecimento sólido. A futilidade e a superficialidade, quando apresentadas com convicção e difundidas com rapidez, geram popularidade, fama, dinheiro. E, comumente, são preliminares para disseminar fundamentalismos, polarizações, separações.
Nesse cenário, o pensamento cuidadoso, a dúvida honesta e a análise responsável perdem espaço. A leitura profunda — que exige pausas, retomadas e reflexão — cede lugar a resumos apressados, frases de efeito, achismos e opiniões instantâneas, pouco ou nada razoáveis. Quando essas opiniões partem de figuras famosas, carismáticas ou persuasivas, o dano é progressivamente maior.
Quase todos viraram “especialistas” e quase ninguém aprofunda!
Multiplicam-se os “especialistas” em quase tudo e sobre quase todos, munidos de um saber raso e de discernimento precário, mas seguros para ensinar e testemunhar, defender e promover, julgar, condenar e rotular.
Práticas como caluniar, difamar, odiar e separar continuam comuns e causam estragos ainda maiores quando se valem da tecnologia e são incentivadas, pois geram engajamento, reforçando bolhas de confirmação — algo que os algoritmos realizam com eficiência.
A complexidade é descartada; incomodam os detalhes, as nuances, o contraditório, as exceções — justamente aquilo que o estudo e a leitura com profundidade e qualidade revelam.
Formação frágil, sociedade vulnerável!
Resumos apressados, cópias de trabalhos da internet, avaliações simbólicas, decoreba e cola em provas e cursos do tipo “pagou, passou” tornaram-se práticas quase naturalizadas.
Substitui-se o aprendizado pelo desempenho imediato. Lê-se pouco, reflete-se menos ainda, esquece-se quase tudo logo depois. O aluno vira cliente; o professor, prestador de serviço; o ensino, produto. O objetivo deixa de ser aprender e passa a ser apenas passar. O diploma chega; o conhecimento, não. E a realidade cobra aquilo que a formação fingiu entregar.
As consequências aparecem em todas as áreas — inclusive, entre jornalistas, comunicadores, professores, políticos, líderes religiosos, influenciadores e produtores de conteúdo.
Ler não é apenas decodificar palavras. É confrontar ideias, dialogar com divergências, reconhecer limites, revisar certezas. Sem isso, não há pensamento crítico — apenas repetição de opiniões alheias.
Estudar sempre exigiu esforço e sempre envolveu leitura – não apenas de apostilas e resumos, mas de textos densos, livros inteiros, autores exigentes.
Complementam: palestras, tutoriais, áudios, vídeos. Exigem outra virtude cara e rara, a escuta, e o esforço criterioso para localizar e priorizar o que é escol e não se distrair tanto com escória – na maravilhosa internet e não apenas nela.
Formação de qualidade pressupõe expectativa alta, rigor, acompanhamento e leitura constante; e há quem a proporcione para si e para outros. Para, ao invés de baixar o nível e contribuir para perpetuar desigualdades, incentivar a emancipação intelectual do estudante, valorizando quem se esforça de verdade e aprende mais; proporcionando condições para que os demais reflitam, mudem e melhorem.
Retrato dos dados: educação fraca, desenvolvimento baixo!
O problema não é apenas cultural; é estrutural.
Os dados ajudam a compreender o cenário. No PISA 2022, o Brasil ficou abaixo da média da OCDE em leitura, matemática e ciências. Apenas cerca de metade dos estudantes atingiu o nível mínimo de proficiência em leitura; em matemática, o percentual é ainda menor. Menos de 2% alcançam níveis elevados de desempenho.
Entre adultos, embora o analfabetismo absoluto esteja em queda, o analfabetismo funcional ainda atinge aproximadamente 30% da população entre 15 e 64 anos. São pessoas que leem, mas têm dificuldade de interpretar textos complexos, cruzar informações ou resolver problemas com autonomia. Mesmo entre aqueles com ensino superior, uma parcela significativa não atinge proficiência plena.
Isso tem consequências que ultrapassam a sala de aula.
A produtividade do trabalhador brasileiro é inferior à de países desenvolvidos e também à de alguns vizinhos sul-americanos. Educação frágil não compromete apenas trajetórias individuais; compromete a capacidade de desenvolvimento de um país.
Quem, mesmo buscando aprimoramento, não aprende a interpretar textos complexos, cruzar informações, identificar contradições e ideologias, distinguir fato de versão, de ponto de vista, de boato e de opinião permanece presa fácil de discursos autoritários, populistas e messiânicos.
Dar o peixe é urgente; ensinar a pescar é estratégico!
Outro ponto sensível é o assistencialismo sem contrapartida concreta, a começar por exigência formativa. Não pode ser uma solidariedade que, em seu bojo, administra e conserva a pobreza cognitiva alheia. Garantir o mínimo para quem precisa é essencial: políticas públicas sem equívocos e sem segundas intenções, para serem realmente eficazes, estimulam autonomia, qualificação e aprendizado contínuo. Dar o peixe é urgente; ensinar a pescar é estratégico!
Estudar, ler e pensar cansa. E liberta!
Estudar, ler, pensar e trabalhar – com intenções, meios e propósitos honestos, inteligência e inovação – não garante sucesso automático e em tudo, nem elimina injustiças e desigualdades históricas. Mas reduz vulnerabilidades. Amplia escolhas. Fortalece a autonomia intelectual.
A superficialidade é confortável. O esforço intelectual, não. Mas é justamente ele que permite sair da repetição ou mesmice e construir protagonismo em melhores relacionamentos e oportunidades.
Inclui assumir-se imperfeito e, principalmente, perfectível. Jamais sentir-se superior a ninguém: ora ajudando e ensinando, ora ajudado e aprendendo. Sempre respeitando!
Estudar cansa. Ler exige disciplina. Pensar incomoda.
Mas liberta!
José Carlos de Oliveira