É bom saber que houve e há padres que atraíram e atraem milhões de fiéis para ouvi-los. Eu nunca fui um deles. Meus dons eram menores!
Perguntaram se eu já fui o padre mais famoso do Brasil. A resposta foi clara:
- Nunca fui, não era, não sou e nunca serei.
Ser conhecido não é ser famoso. Já respondi que todas as vezes em que cantei e preguei para grandes multidões quem reuniu o povo foram os bispos, foi o movimento ou a data litúrgica.
Eu apenas fui lá para motivar. Porém, aquela gente não veio lá por causa de mim.
De fato, aqueles milhões de olhos e ouvidos nunca foram lá só para me ver ou cantar comigo. É verdade que o convidado era eu, mas eu não era o convidador.
Quando passava de cem mil fiéis, ou era festa de Jesus Cristo e de Nossa Senhora. Não era eu a reunir aquela gente!
Se tive algum mérito é que sempre fiz questão de produzir um bom espetáculo de arte e catequese. Isto eu sabia fazer. Estudei comunicação para isso!
Eu levava bons cantores e excelentes instrumentistas comigo. As canções eram da minha autoria, mas só ficavam bonitas porque meus jovens tocavam, dançavam e cantavam bem.
Eu pedia que os holofotes iluminassem meus jovens. Eu já era bem conhecido! Agora era a vez de mostrar os novos talentos da Igreja Católica! Eu revelava novos talentos. A pastoral de juventude exigia isto!
Eu era o pregador, mas o show ficava bonito por causa dos bons artistas que eu reunia!
Então, nunca fui o padre mais popular, nem o mais famoso, nem o melhor. Meu mérito estava em unir arte e mensagem. Eu não era o artista. Mas eles eram. Para mim bastava ser o padre catequista! Quem viu meus shows sabe que era assim! Eram duas horas de catequese cantada!
O tema era sempre o CIC, o CVII e a DSI. Eu era e queria ser um bom atualizador e um razoável repercutidor da catequese católica.
Catechein, de onde vem a palavra catecismo ou catequizar ou catequista significa: repercutir, passar a mensagem adiante!
Acho que eu era e ainda acho que sou um padre preocupado em passar adiante o que a Igreja está dizendo naquele momento!
Neste contexto penso que fui e ainda sou um mensageiro que descobriu para que servem os instrumentos, a canção, a mensagem e o diálogo.
Acho que fui e ainda sou um pavio fino que emitia e ainda emite alguma luz.
Acho que minha missão era viajar pelo mundo para acender outras tochas, outras velas e outros pavios!… Fiz no Brasil e lá fora!
Acender pavios nunca foi fácil e continua não sendo! Há rajadas e ventos furiosos ao redor dos púlpitos de agora!…
Pe. Zezinho SCJ
Tendo lido e pensado sobre este texto, escreveu o Pe. Rodrigo:
Querido Pe. Zezinho.
Vivemos um tempo em que a sociedade costuma confundir alcance com relevância, audiência com autoridade e fama com legado.
Jô Soares dominou as madrugadas. Silvio Santos reinventou os domingos. Faustão acelerou o ritmo da televisão. Gugu Liberato emocionou famílias. Chacrinha rompeu todas as regras do espetáculo. Cada um foi grande no seu universo.
O senhor fez algo diferente: entrou nas casas sem disputar ibope. Enquanto muitos procuravam aplausos, o senhor semeava perguntas; enquanto o mundo fabricava fãs, o senhor ajudava a formar discípulos.
A televisão mede sucesso por pontos. O Evangelho mede por frutos.
Talvez o Brasil nunca tenha entendido que existem pessoas que se tornam patrimônio de uma nação sem jamais depender da lógica das celebridades. O senhor pertence a essa rara categoria.
Há artistas que deixam bordões. Há comunicadores que deixam programas. O senhor deixou canções que continuam rezando quando seus autores já desceram do palco. Deixou catequistas, padres, famílias e comunidades que aprenderam a cantar a fé antes mesmo de compreender toda a sua teologia.
Uma vela bruxuleante? Talvez.
Mas a história ensina que civilizações inteiras atravessaram a noite guiadas por uma única chama. E a luz nunca precisou fazer barulho para vencer a escuridão.
Obrigado por recordar ao Brasil que a missão mais importante não é ser lembrado como celebridade, mas reconhecido por Deus como servo fiel.
Pe. Rodrigo Rodrigues